A questão Aranha e as teorias da relativização

O contexto. Sempre que alguém quer tentar diminuir o impacto de determinada atitude, fala em contexto. Obviamente, que nada se apresenta isolado, ninguém é uma ilha, mas utilizar o conceito de contexto para legitimar algo é sim uma forma de relativização. E a partir desse mote que entro no quente debate do caso de injúria racial contra o goleiro Aranha – do Santos – em jogo da semana passada na Arena do Grêmio.

Aguardei alguns dias para escrever sobre o fato justamente para ter um panorama mais claro sobre a situação e seus desdobramentos. E entendo que fiz bem. Não sou daqueles que entendem ‘constantes’ fatos isolados como ‘eternos’ fatos isolados e, assim, legitimadores para que alguns descerebrados continuem agindo dessa forma. Assim, como também não vejo o clube Grêmio como patrocinador dessas atitudes, ainda que tenha sua parcela de culpa por, durante anos, subsidiar alguns destes mesmos torcedores que se penduraram nas muretas do setor norte da Arena para gritar ‘macaco’ e grunhir tal qual um primata em claro direcionamento ao goleiro Aranha. Ademais, atitudes individuais acontecem em qualquer lugar, ainda mais em um estádio com mais de 30 mil pessoas pressionadas emocionalmente por uma derrota parcial e provável eliminação.

Entretanto, após o triste caso e sua impactante repercussão, buscam-se fatos semelhantes oriundos da mesma torcida. Ainda que o Grêmio sabiamente não seja um clube racista (pois se assim o fosse não contaria com jogadores e funcionários negros), pequena parte de sua torcida é racista. Há alguns anos, ainda no Olímpico, o atacante colorado Zé Roberto foi hostilizado com grunhidos de primatas enquanto aquecia para entrar em campo. Situação igual aconteceu contra o Cruzeiro e alguns de seus jogadores negros no mesmo local. Neste ano, em plena Arena, o zagueiro do Internacional – Paulão – também foi chamado de macaco e recebeu uma triste ‘performance’ de alguns gremistas imitando macacos. Ou seja, ainda que sejam poucos torcedores preconceituosos, os casos não são isolados. De forma nenhuma!

O termo caso isolado é o principal lema dos teóricos da relativização. Usam desse artifício para preservar o clube e sua torcida (e eles têm todo o direito de agir e pensar dessa forma). O que não consigo aceitar é um diretor do clube falar que o Grêmio foi mais vítima no caso do que o goleiro Aranha. Isso beira o absurdo! Como alguém pode querer relativizar uma situação dessas pensando primeiro em algo institucional (quase abstrato), em detrimento do ser humano que sofreu a injúria racial? Como levar a sério as ações que o corpo diretivo do clube está tomando se um de seus diretores concede entrevista à Rádio Gaúcha afirmando isso? Que haja reconsideração sobre as afirmações dessa desastrada entrevista!

Ainda, os teóricos da relativização gostam de misturar alhos com bugalhos para tentar justificar o injustificável. Li e ouvi algumas pessoas encherem a boca para proferir frases como: “é muito mais ofensivo chamar alguém de filho da p*ta do que de macaco”. Não, amigos e amigas, definitivamente não é! Esses que afirmam isso já perguntaram a um negro sobre o que é pior? Ou apenas trata-se de uma rasa inferência para tentar legitimar o absurdo? Também há aqueles que tentam relativizar o caso em debate falando que há torcidas de futebol que são homofóbicas. E realmente há! Inclusive, a torcida do meu time – Internacional – entoa alguns cantos bem ridículos que versam sobre isso. Falam em “os p*tos do Grêmio” e outros termos desse nível. Eu, particularmente, acho deplorável, pois a torcida do Inter possui outros tantos cantos muitos legais e não precisa desse tipo de artimanha para motivar seus torcedores. Mas o caso em debate não é sobre homofobia e sim sobre injúria racial. Qualquer tentativa de desviar o foco só ajuda a manter esse status quo que cada vez mais se faz presente em estádios de futebol. O caso Aranha é sério e deve ser tratado como tal, inclusive em termos de punições. Assim como é sério e triste o fato de as pessoas definirem julgamentos e linchar virtualmente a tal Patricia, proferindo as piores ofensas sem nenhuma lucidez para avaliar a situação com um mínimo de razão. Enfim, também espero que nossas instituições não prevariquem mais uma vez.

Enquanto o contexto do estádio servir como fator de relativização aos casos de injúrias raciais, não haverá resolução ou diminuição desse problema. Enquanto setores do clube Grêmio e setores da opinião pública do Rio Grande do Sul (sempre dominados pelo aspecto da grenalização doentia) tentarem relativizar esses casos como fatos isolados, a ferida seguirá aberta. E não é disso que precisamos! Precisamos vencer os preconceitos em todas as searas, inclusive no futebol. E a primeira forma para se vencer um problema é aceitar que ele existe. Tentar escondê-lo ou justificá-lo é uma maneira inconsciente de perpetuá-lo.

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O que esperar do GreNal no Dia dos Pais

A rodada de sábado foi excelente p/ o Inter. Hoje basta fazer seu papel, mas isso sempre tem se mostrado o mais difícil nos últimos tempos. Há alguns anos, em situação similar, teve até dirigente falando em “não ser momento de alcançar a liderança”…

De qualquer forma, vários fatores serão determinantes no clássico desse domingo de Dia dos Pais. A estreia do Sr. Scolari no rival, e sua tradicional motivação que entranha no âmago de seus jogadores, além do primeiro clássico no renovado Beira Rio da Copa do Mundo. Ainda que instável, o time do Inter parece melhor, contando também com a volta de Aranguiz. Mesmo assim, no GreNal as forças se equilibram pelo simbolismo que essa partida carrega e pela importância desse resultado no dia seguinte, capaz de transformar medíocres em protagonistas.

Também há fatores outros que podem determinar o andamento do clássico. Um deles é arbitragem, nesse domingo a cargo de Anderson Daronco. Conhecido torcedor gremista pelos lados de Santa Maria, Daronco terá a difícil missão de apitar com isenção o principal enfrentamento dos gaúchos. Nesse sentido, há 2 condicionantes, pois pode se deixar levar pelo coração tricolor ou pode se deixar levar pela tentativa de parecer mais isento ‘do que o Rei’ e deixar de apitar situações para o time azul. (e isso acontece bastante entre jornalistas ‘isentos’ da imprensa do RS em termos de opiniões)

Enfim, temos Abelão X Felipão. Scolari com enorme supremacia em clássicos e também supremo sobre Braga nos demais confrontos ‘externos’. O interessante desses números todos é a chance que os ‘inferiores’ têm de modificar a estatística contra os ‘superiores’. Ou não… Mas o mais importante: que seja um clássico de PAZ para orgulhar pais colorados e gremistas. Feliz Dia dos Pais!

Créditos: Jornal Correio do Povo - 10.08.2014

Créditos: Jornal Correio do Povo – 10.08.2014

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O maior fiasco brasileiro na mais bela Copa da história

Bola_antiga

2014: é a Copa do Mundo mais sensacional que eu pude acompanhar. Sensacional é pouco! A mais fantástica! Tudo bem, pode ser porque eu pude ir ao estádio, acompanhar ao vivo, dou esse desconto a minha própria exaltação. Porém, avalie: média de gols excelente; estádios repletos, com a segunda maior média de público da história das Copas; estrangeiros sendo bem recebidos em diversas cidades; além da integração de seleções estrangeiras com as comunidades brasileiras como nunca antes visto.

E justamente nessa Copa diferenciada a nossa seleção brasileira resolve fazer o maior fiasco dentre as suas participações em Mundiais. Eu não fico triste por perder, pois perder faz parte do jogo. Na verdade, a derrota sempre fez parte para quem tem alma desportista. Vencer é o bônus que poucos alcançam e nós, brasileiros já fomos bonificados em 5 momentos. O que me incomoda é a intransigência, a falta de atenção ao outro, ao adversário. A falta de interesse em notar que estamos menores e precisamos ser humildes para tentar vencer. E a passividade ao ver o surrado corpo cair, é algo desolador. Nosso comandante não tentou nada! Não reagiu a nenhum golpe!

Errar na estratégia é aceitável e muitos já erraram. Ainda que o tamanho do erro dessa vez tenha dimensões asiáticas. Convocação tomada de jogadores medíocres, esquema tático ultrapassado e NENHUMA opção de mudança durante o jogo. Quem não sabia que um meio de campo faceiro seria dizimado pela especialista engenharia futebolística alemã, ainda mais com craques diversos nesse setor? E nem após tomar 2 gols houve mudança nenhuma no time!! Se nós tivéssemos uma confederação de futebol séria, o treinador da seleção brasileira seria demitido no vestiário, durante o intervalo!! Mas na CBF ninguém entende nada de futebol, a especialidade lá é outra, bem determinada pelos caminhos do trambique.

O Sr. Scolari é um vitorioso em sua vida. Tem estrela, títulos conquistados com esmero e competência há alguns anos. Entretanto, parou no passado e não há indicativos de que saia de lá. Proporcionou a maior vergonha da história do futebol brasileiro agarrado a uma convicção ultrapassada e arcaica. A limitação tática dos treinadores brasileiros é fato, mas isso não justifica uma derrota do tamanho desta de hoje, não justifica levar 7 gols em casa, em uma semifinal de Copa. Nem o folclórico Zagallo de 1998 foi tão decrépito quanto este Scolari de 2014. Maracanazo virou gorjeta! A bola da seleção de Scolari é a que ilustra este post. Uma seleção taticamente dos primórdios do futebol.

O que fica é a alegria de o Brasil ter patrocinado a maior Copa da história! Não falo de governos, falo da nação Brasil, dos brasileiros que encantaram os povos visitantes. Somos vitoriosos pela capacidade de realizar a mais bela edição do maior evento esportivo do planeta. Sinto-me realizado! E que tenhamos novas Copas no Brasil para que possamos vencê-la dentro de nossa casa! Quem sabe em 2022 não possamos assumir o lugar do enrolado Catar? Sonho meu…

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O brasileiro precisa de educação digital

Hoje, durante o Fórum de TI do Banrisul, um palestrante falou que o brasileiro precisa de educação digital. E realmente há essa necessidade! Tanto em termos de segurança quanto em termos de conteúdo.

Vou focar apenas no conteúdo: veja o exemplo da moradora de Guarujá que foi espancada até a morte. Um boato absurdamente falso (com o perdão da redundância), compartilhado no FB, conseguiu engajar um bando de alienados ao ponto de assassinar uma pessoa!! Essa quadrilha não parou um segundo para avaliar a veracidade do fato! E essa falta de avaliação é notada diariamente nas redes também em relação a outros assuntos. Analisem o que foi a enxurrada de falsidades sobre o Marco Civil da Internet!

Agora, dando sequência à podridão, a bola da vez é a regulação da mídia, que tentam nos empurrar como perda de liberdade de imprensa, expressão e tudo mais. Quando na verdade, resumidamente, é uma regulação para evitar os monopólios e oligopólios que concentram os meios de comunicação e definem as ‘verdades’ de acordo com suas considerações ‘estratégicas’.

Então, pessoal, mesmo com todas as lambanças que nossos representantes políticos praticam em seus mandatos, não acredite em tudo e se informe antes de disparar o botão de compartilhamentos para qualquer bobagem! Seja digitalmente educado!

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Carta aos Amigos Gremistas!

Há momentos em que, por mais que seja humilhante, devemos aprender com nossos maiores rivais. Fernando Carvalho foi um exemplo disso ao buscar em Koff uma referência vitoriosa. Mas, o que vejo, é que o outro lado tem imensa dificuldade de ser humilde e aprender com o outro.

Assim, segue a fase. No final do ano o Grêmio alcançará o Inter em recorde de tempo de jejum, ou seja, 13 anos e meio. Se houver vida inteligente por lá, é de parar e avaliar profundamente. Esquecer esse discurso barato de torcedor de que vencerão a qualquer momento executando as mesmas estratégias derrotadas. Esquecer a arrogância e ser humilde. Esquecer a editoria da RBS que transforma boas vitórias em jogos comuns em ‘quase’ títulos, chegando a classificar o meia Tcheco como ‘Ser Superior’. Esquecer as lições arrogantes e extremadas do ‘Reverendo Cacalo’, entender que não são únicos e que atualmente estão por baixo. E lembrar como referência própria os grandes títulos conquistados, não um título de Segunda Divisão.

(BTW, arrogância é um tema que me preocupa muito em relação aos ‘novos’ torcedores colorados forjados na era vitoriosa…)

Apenas esquecendo o passado, minimizando aquele discurso de primeiro campeão brasileiro do RS, único campeão invicto, líder do ranking nacional (naquele momento), o Inter emergiu (ainda que o Luigi ‘tente’ nos afundar novamente…). E não apenas dentro do clube deve haver essa conscientização, mas principalmente da torcida. É essa dificuldade que vejo no rival. Em sua maioria, vivem em um mundo paralelo em que se acham os melhores do mundo! Exemplo: dias atrás, vi em comunidades virtuais comparações da escalação do Grêmio com a dos principais postulantes ao título da Champions, já prevendo uma Final de Mundial. Isso é aceitável, do jogo, mas o problema é concluir que o time azul era melhor, no mínimo igual aos grandes europeus…

Então, amigos azuis, fecho esse texto dizendo que não é feio ser humilde. Não é feio, nem errado, aprender com o outro. Errado e feio é continuar errando. E perdendo…

Aflitos

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A Liberdade e a Era da ‘EuCracia’

‘Rolezinho’ virou sinônimo de duelos entre inconsequentes? É isso? A tão reclamada liberdade para os jovens ‘desfavorecidos’ é para praticar a violência? Há alguns anos eu tenho visto a mesma coisa em Porto Alegre, ainda que chamada de arrastão dos bondes, ou algo parecido.

Em um primeiro momento, aconteciam nos parques da cidade, afastando quem queria aproveitar o ambiente, o momento tranquilamente. E agora está dentro de shoppings. E aí os Shoppings viraram a ‘Jeni’, os dilaceradores da liberdade de ir e vir, por tentar bloquear esses ‘eventos’. Mas poucos entendem que a sua liberdade vai até onde começa a minha e de outras pessoas. Parques públicos ou shoppings não são ambientes para duelos, para violência desmedida, para patifarias das mais variadas formas.

Infelizmente, estamos criando um ambiente que transforma a liberdade em ampla liberalidade. Confundem o ambiente democrático com ambientes desregrados, em que tudo se pode fazer, independentemente das consequências disso. Estamos partindo para um modelo de ‘EuCracia’. E os demais que se explodam! Sempre com a desculpa de que devo ter liberdade para fazer o que bem quero. Só que a coisa não funciona assim.

Então, maximizaram os direitos, esqueceram até de apresentar minimamente os deveres. Dever, conceito esquecido nestes tempos. Liberdade, teve seu sentido transfigurado atualmente. E seguimos o rumo de uma sociedade democrática que engatinha… Mas que já deveria estar caminhando. Em que o respeito ao outro deveria ser, digamos assim, no mínimo, respeitado.

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O Brasil precisa do Dia da Consciência Negra

Aproveito o dia para tocar no relevante assunto. É muito fácil para quem é branco e de classe média (grupos em que me incluo) dizer que não precisamos ter um dia da Consciência Negra. Em uma sociedade hipócrita, individualista e sem memória, como a brasileira, nunca haverá algum resultado se não marcarmos datas e se não tivermos realizações que relembrem o quanto os negros foram ultrajados durante séculos aqui no Brasil.

Esse papinho de ‘Consciência Humana’ é muito legal, mas é tão vago que não serve nem para motivar um bocejo sequer. Os conservadores sempre têm essa ideia de argumentar com generalizações para refutar ações pontuais e necessárias. É aquela velha história do Delfim Neto: ‘vamos fazer o bolo crescer para depois dividir’. E enquanto o bolo não crescer, apenas os mesmos ficam se lambuzando com seus saborosos recheios…

É mais ou menos assim a lógica conservadora: ‘não vamos falar em consciência negra para não trazer o tema do racismo ao debate e, automaticamente, sermos racistas. Quando lembramos, já estamos sendo racistas!’ Esse é o pensamento mágico! Silencia-se como forma de não discriminar! E discrimina-se como forma de manutenção do status quo vigente. Dos brancos, é claro!

Ademais, esperar que a sociedade brasileira amadureça por si só é a maior das utopias (muito maior até do que aquela dos comunistas). Precisamos de datas que nos marquem, que nos lembre de que ainda há racismo, que ainda há discriminação! Antes da consciência humana, precisamos ter consciência de que o negro que passa ao meu lado ganha menos do que um branco com a mesma formação no mesmo trabalho, entre tantas outras diferenças brutais.

Portanto, paremos com a hipocrisia de criticar tudo que se faz em prol das minorias! Isso se faz nas maiores democracias do mundo, inclusive nas mais liberais! E lá o choro é mínimo! Talvez porque lá a ‘consciência humana’ já tenha despertado…

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