Dos absurdos que aparecem em época de eleições: quem recebe Bolsa Família não deve votar!

Acabo de ler no portal do Estadão (http://politica.estadao.com.br/blogs/roldao-arruda/associacao-propoe-suspender-voto-de-quem-recebe-bolsa-familia) um dos maiores absurdos já preconizados desde a volta da era democrática no Brasil: a chamada Proposta da ACIPG – Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa para os Candidatos Locais à Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa do Paraná que defende a restrição do direito ao voto de beneficiários do programa Bolsa Família.

Como muitas das propostas que aparecem nessa época, porém defendidas pelos próprios candidatos, esta tem origem em uma associação de classe empresarial. O que isso significa? Significa desinformação e preconceito, para não avançarmos demais nas qualificações. Primeiro porque é inconstitucional retirar o direito ao voto de um cidadão simplesmente por ser beneficiado por um programa governamental. Em segundo lugar, porque não é apenas o Bolsa Família que beneficia centenas de milhares de eleitores em termos de políticas de governo.

Vamos aos fatos: se essa ideia de retirar o direito ao voto de quem recebe algum tipo de transferência de recursos de governos fosse minimamente séria, teríamos de restringir o voto de quem recebe o seguro desemprego. Ainda, deveriam ser excluídos da classe de eleitores também os empresários beneficiados por programas de governos que direcionam financiamento a fundo perdido para suas empresas. Assim como os grandes agricultores que frequentemente têm suas dívidas perdoadas junto a bancos estatais! Além destes, alunos e professores pesquisadores que ganham bolsas para apenas se dedicar a esta tarefa, perderiam a chance de votar e escolher seus representantes, pois estariam sendo ‘comprados’ pela tal bolsa. Isso para ficar em apenas alguns exemplos de transferência de renda.

Mas é apenas o dinheiro no bolso de um cidadão que faz a diferença para definir o direito a votar? Quem sabe, seguindo essa (i)lógica, os alunos de escolas e escolas técnicas federais da mesma forma estariam dentro desse grupo de excluídos, pois são privilegiados ao ganhar educação diferenciada podendo ser ‘tutelados’ por seus governos que comandam tais escolas (e nem vou falar dos alunos de universidades federais). E determinada cidade que ganha um novo hospital, não estaria sendo ‘comprada’ pelo governo que o construiu? Assim como outra cidade que recebe acesso asfáltico em um governo, não estaria sendo condicionada a votar nos representantes daquela gestão que executou a obra? Claro que não! Se partirmos para esse tipo de restrição, nenhuma ação de governo poderá ser considerada isenta e desvinculada de interesses eleitorais!

O que fica dessa proposta absurda é que o foco sempre se direciona para quem está em um programa assistencial que retira as pessoas da miséria. Como citado acima, por que não ‘avaliar’ os demais casos de transferência de renda? Por que apenas criticar aqueles que mais precisam em termos de necessidades fundamentais, como se alimentar? Tenho plena convicção de que o programa Bolsa Família poderia ser muito melhor administrado, que poderia ser melhor linkado com o Pronatec para capacitar seus beneficiários em termos de qualificação profissional. Porém, é o que está ajudando a alimentar milhões de famílias que antes não tinham o que comer! E, bem ou mal, é condicionado à presença dos filhos na escola e o resultado aparecerá em alguns anos com a melhora de alguns índices no tocante à educação.

Enfim, se o programa tem cunho eleitoral, como cita a associação paranaense, por que outros governos não o criaram antes e se beneficiaram de seus encantos? A resposta é simples: porque nunca o combate a pobreza foi prioridade! Esse documento parece-me muito mais impotência programática (daqueles que estes empresários gostariam de ver eleitos) do que qualquer outro tipo de preocupação ‘republicana’. E, reitero, o alvo é sempre direcionado aos mais necessitados. Que o debate programático volte ao radar, pois há muitas outras demandas importantes para discutirmos nesse período eleitoral.

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About Daniel Mello

Coordenador Comercial na Infoar - Mais Continental; Consultor em Marketing Direto e MKT de Relacionamento; Professor de Língua Portuguesa. Um profissional dedicado aos encantos da área comercial e aos mistérios da Comunicação Escrita e Produção de Textos! Um cara sempre em busca de aprendizado. E pronto para dividir expectativas, anseios e um pouquinho de conteúdo! ;)
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