O porquê de eu ser a favor do programa Bolsa Família

O Delfim Neto já dizia, ainda nos anos de chumbo, que o Brasil precisava fazer o bolo crescer para depois dividir. O problema é que esse bolo nunca cresceu e, por consequência, nunca foi dividido em mais de 20 anos! E aí? É óbvio que qualquer programa social tem impacto direto nas escolhas de voto dos beneficiários, não tem como discordar disso. Porém, eu prefiro correr esse risco e ver um povo que antes estava na miséria com comida na barriga agora do que ver pessoas em estado de carência e de extrema pobreza passando fome.

E eu reafirmei essa minha visão sobre os programas sociais nesse ano. No início de 2013 eu e minha esposa começamos a ajudar uma família na Vila dos Coqueiros, lá na saída da Restinga, em Porto Alegre. É uma vila que não possui nenhum tipo de assistência, pois não tem água, saneamento, energia elétrica, programa habitacional, NADA. As pessoas são obrigadas a fazer suas necessidades em baldes e depois jogam os dejetos no leito da rua mais próxima ou nos fundos da área em que eles moram. Sobre essa família: é uma mãe de família que possui 2 filhos e já aos 30 anos está doente com início de Mal de Parkinson e não consegue emprego por isso. Se não fosse o benefício de 200 e poucos reais do Bolsa Família esse pessoal não teria absolutamente nada para comer. Então, a realidade é bem diferente do que pensamos de nossas casas, bem alimentados, bem acomodados, entre outras condições favoráveis (e isso não é crítica nenhuma a condição de ninguém!).

Até para esclarecer, em 2002 eu votei em Lula. Depois do período ‘pós-mensalão’ não votei mais no PT em nível nacional. Mas isso não me tornou anti-PT e muito menos um crítico ferrenho de seus governos. Trata-se de um governo ‘multipartidário’ e que se misturou com o que tem de pior na política brasileira. Precisaria melhorar muito para que eu o defendesse como um petista ou petralha como alguns Lacerdinhas me chamam por defender programas sociais. Mas no caso do Bolsa Família, eu defendo a manutenção do programa contra muito preconceito e desinformação. Afinal, o que são 20 bilhões por ano para o programa quando a corrupção nos arrebenta com 80 bilhões e a sonegação de impostos dos grandes empresários nos sangra com 240 bilhões por ano? E outra, por que não criticamos com tanta veemência o governo por captar dinheiro a juros de mercado e entregar a grandes empresários com juros subsidiados via BNDES (inclusive para as grandes construtoras que estão fazendo os estádios da Copa, incluindo o Beira Rio e ainda a Arena do Grêmio)? Seria essa prática uma espécie de ‘Bolsa Empresário’?? E essa ‘Bolsa’ é um dos pontos que faz disparar a dívida interna que poucos se preocupam e logo mais vai cobrar seu preço…

Ademais, 10 anos de programa Bolsa Família é muito pouco para se cobrar por resultados definitivos. É claro que programas assistenciais devem ser temporários, mas isso não é como um estágio probatório de alguns meses e está feito. Isso demora no mínimo uns 20, 25 anos para dar resultados efetivos e no Brasil provavelmente mais do que isso. Ainda, não se pode cobrar que um cidadão busque capacitação profissional de barriga vazia. Ele não vai permanecer em qualquer programa desse tipo sem estar razoavelmente alimentado, assim como seu filho não vai aprender na escola se estiver faminto. Então, a crítica deve ser pela falta da continuidade de projetos, que seria a capacitação profissional, mas não deve ser feita sobre a primeira etapa desse processo que é alimentar razoavelmente quem antes nada tinha para comer.

Portanto, reitero que prefiro correr o risco de termos alguns milhões de beneficiários votando no governo que os concede o benefício do que ver pessoas passando fome, sem ter o que comer. Ah, e há um limite para esse valor da Bolsa, pois não é só empilhar filhos para que o valor seja infinitamente aumentado. Para fechar: são em torno de 13 milhões de famílias beneficiadas, o que dá em torno de 20 milhões de eleitores. E esses são os mesmos que eram comprados pelos nossos políticos em épocas de eleições. Era a tal da ‘Bolsa Rancho Eleições’, mas que existia apenas no período de campanhas eleitorais. E depois voltava a fome, a miséria e a dependência dos candidatos nas eleições seguintes… Ah, e uma curiosidade: nessa vila em que ajudamos, não vi nenhum cartaz de apoio a candidatos do PT, mas vi sim cartazes de outros candidatos a vereador de outros partidos. Pode ser que isso signifique alguma coisa.

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About Daniel Mello

Coordenador Comercial na Infoar - Mais Continental; Consultor em Marketing Direto e MKT de Relacionamento; Professor de Língua Portuguesa. Um profissional dedicado aos encantos da área comercial e aos mistérios da Comunicação Escrita e Produção de Textos! Um cara sempre em busca de aprendizado. E pronto para dividir expectativas, anseios e um pouquinho de conteúdo! ;)
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