Uma Avenida real? Um Brasil real?

Ontem, após o final da novela Avenida Brasil, muitas pessoas influentes da mídia, críticos, artistas, consultores de mercado, entre outros profissionais, diziam que tal novela foi um grande espelho da realidade do Brasil. Em termos de foco e direcionamento até concordo, por retratar majoritariamente o comportamento da Classe C (mesmo p/ o endinheirado protagonista Tufão), mais da metade da população brasileira. (Nesse quesito, chamo a atenção para o fato de que o único núcleo de Classe A da trama (Cadinho e cia) ‘morreu’, renascendo no bairro Divino como parte da “C”, reafirmando a escolha do autor pela apresentação do brasileiro desta classe)

Por outro lado, de acordo com os capítulos que acompanhei, a enorme quantidade de fatos inverossímeis da trama não me permite afirmar que foi um espelho “real” (não pela falta de verossimilhança, algo já tradicional em novelas, mas pelo excesso de cenas inverossímeis para justificar o andamento do folhetim). Aliás, alguns autores, como no caso de João Emanuel Carneiro e sua Avenida Brasil, ainda trabalham suas obras como se o público não tivesse um mínimo de inteligência, de capacidade de assimilação de situações claras e cristalinas, como se estivessem em um tempo passado, que não acompanhou, por exemplo, as novas tecnologias que já estão popularizadas pelo país (ou esqueceram que a inteligente Nina desconhecia pen drive, ou um HD, ou o envio das fotos da traição de Max e Carminha por e-mail para deixá-las salvas?).

Obviamente, que conflitos entre pessoas, famílias e familiares existem e fazem parte da rotina de todos nós. Entretanto, a forma como as tramas ‘arrastam’ estes casos torna os fatos quase como fantásticos, surreais. E é isso que desconecta as novelas da realidade, por mais que abordem situações efetivamente reais. E, também, é esse fator que rebaixa as novelas em relação ao cinema, um modelo muito mais real da arte de retratar o cotidiano (excetuo aqui as ficções fantásticas e outras ‘bombásticas’, como alguns filmes de ação).

Nesse sentido, diante da completude que apresentou para sua época, com conflitos definidos de forma mais nítida e tangível, nenhuma novela de cunho ‘dramático’ chegará ao nível de Vale Tudo! Porém, com a escassez de boas tramas, tenho de concordar que Avenida Brasil pelo menos venceu a mediocridade. E gerou uma receita bilionária para a Rede Globo, alcançando seu principal objetivo como negócio.

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About Daniel Mello

Coordenador Comercial na Infoar - Mais Continental; Consultor em Marketing Direto e MKT de Relacionamento; Professor de Língua Portuguesa. Um profissional dedicado aos encantos da área comercial e aos mistérios da Comunicação Escrita e Produção de Textos! Um cara sempre em busca de aprendizado. E pronto para dividir expectativas, anseios e um pouquinho de conteúdo! ;)
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One Response to Uma Avenida real? Um Brasil real?

  1. 3718, saraiva disse:

    OLHA MEU AMIGO, MEU VELHO COLEGA DE EB, VULGO “CASTOR” …risos, não conhecia a tua veia crítica, melhor, de escritor crítico que vi que és. Cara teu t exto é genial, recheado de verdades, permeado de certezas de um ser que realmente reflete e entende as astúcias dos poderosos do país -Rede Globo, grande manipuladora de analfabetos funcionais, e não discrimino estas pessoas, mas sim concordo com que dizes manifestando minha opinião. É verdade, caro Daniel Melo, que Vale Tudo foi uma trama daquelas geniais e produzidas com outros propósitos, pois era outra época. Hoje, me parece que impera o poder, simplismente o poder da famigerada audiência.

    Ademais, um abraço, do Cristiano Saraiva.

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