O Brasil e os Jogos Olímpicos de Londres

Estava esperando o final dos Jogos Olímpicos de Londres para escrever este texto. Porém, não creio que a realidade aqui apontada mudará nos próximos dias, nem que os ‘coitadistas’ deixarão de bradar seus apontamentos. Em função de contrapor as muitas ‘fontes’ de informação que ainda afirmam ser o esporte olímpico brasileiro, excetuando-se o futebol masculino, uma seara de heróis e de legítimos patriotas sem apoio mínimo nem condições de treinamento, é que aqui escrevo. Obviamente, há casos em que ainda podemos, infelizmente, concordar com estas afirmações. Entretanto, há várias modalidades que já contam com ótimos apoios, sejam de patrocínios, sejam de incentivos legais como a Lei Agnelo/Piva (10.264).

Antes de seguir o raciocínio que direciona esta postagem, cabe uma rápida explicação sobre a Lei Agnelo/Piva (10.264). Ela foi sancionada pelo então Presidente Fernando Henrique Cardoso em julho de 2001. Ficou conhecida como Lei Agnelo/Piva por causa do nome de dois de seus autores, o então Senador Pedro Piva (PSDB-SP) e o então Deputado Federal e ex-Ministro do Esporte Agnelo Queiroz (PCdoB-DF). Esta lei determina que 2% da arrecadação bruta de todas as loterias federais do país sejam encaminhados ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e ao Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB). Disso tudo, 85% vão para o COB e 15% ao CPB. Da parte do COB, 10% devem ser investidos no esporte escolar e 5%, no esporte universitário. Em agosto de 2001, o COB criou o “Fundo Olímpico”, a partir do qual as verbas oriundas da Lei Agnelo/Piva são distribuídas às Confederações Brasileiras Olímpicas conforme normas ‘ditas’ criteriosas. Em 2012 o valor estimado arrecadado com a lei gira em torno de R$ 145 milhões. Algo como 60% desse montante (retirando os índices de 10% p/ o esporte escolar e 5% para o universitário) é dividido entre as 29 confederações nacionais de esportes olímpicos, exceto a CBF (futebol). Os restantes 40% são aplicados diretamente pelo COB em projetos de maior grandeza, como construção e manutenção de instalações esportivas, além de participações em eventos e projetos de acompanhamento. Abaixo um pequeno resumo dos investimentos previstos para cada confederação em 2012:

Atletismo – 3.200.000,00
Badminton – 1.500.000,00
Basquetebol – 2.800.000,00
Boxe – 2.000.000,00
Canoagem – 2.500.000,00
Ciclismo – 2.500.000,00
Desportos Aquáticos – 3.200.000,00
Desportos na Neve – 900.000,00
Desportos no Gelo – 500.000,00
Esgrima – 1.300.000,00
Ginástica – 3.100.000,00
Golfe – 900.000,00
Handebol – 3.200.000,00
Hipismo – 3.200.000,00
Hóquei sobre a Grama – 1.300.000,00
Judô – 3.200.000,00
Levantamento de Peso – 1.300.000,00
Lutas Associadas – 1.700.000,00
Pentatlo Moderno – 1.500.000,00
Remo – 2.100.000,00
Rugby – 900.000,00
Taekwondo – 1.300.000,00
Tênis – 2.100.000,00
Tênis de Mesa – 2.500.000,00
Tiro com Arco – 1.300.000,00
Tiro Esportivo – 2.200.000,00
Triatlo – 2.300.000,00
Vela e Motor – 3.200.000,00
Vôlei – 3.200.000,00

Ainda, cabe informar que o governo federal, através do Ministério do Esporte, concede a diversos atletas a chamada Bolsa-atleta. Trata-se de um programa que oferece um salário mensal aos atletas de alto rendimento que não tenham patrocínio. A ideia é evitar que promessas do esporte tenham que trabalhar ao mesmo tempo em que treinam. A contribuição mensal é de R$ 370 para atletas estudantis, R$ 950 para atletas nacionais, R$ 1.850 para atletas internacionais e R$ 3.100 para atletas olímpicos e paraolímpicos. Ou seja, atletas que estão nos representando em Londres e que não tenham patrocínios, recebem o valor de R$ 3.100,00 para se dedicar integralmente aos treinos. Há de se admitir que este valor é bastante razoável dentro da conjuntura nacional, ainda mais que as competições são bancadas pelas confederações e até mesmo pelo COB. No link a seguir é possível conhecer todos os 4.243 atletas contemplados nas mais diversas modalidades e formatos: http://www.esporte.gov.br/arquivos/snear/bolsaAtleta/portariaN4708032012.pdf

Dito isso, um breve resumo sobre a lei, sua aplicação, e valores investidos, além de informações sobre o Bolsa-atleta, fica claro que há verbas destinadas para as confederações. Algumas utilizam os valores de melhor maneira, outras nem tanto. Talvez esteja aí o problema dessa divisão: a falta de gestão dentro das confederações. O COB faz um controle sobre essas aplicações, mas esse gerenciamento deveria ser maior e mais qualificado, através de um sistema de indicadores que o próprio COB deveria determinar, integrando todas as confederações com seu próprio sistema de gestão (pelo menos nessa área de investimentos dos valores distribuídos da Lei Agnelo/Piva).

Ademais, não há sombra de dúvida de que o esporte olímpico brasileiro mereceria valores muito maiores para investimentos, principalmente durante a fase escolar. É na vivência escolar que as preferências esportivas se apresentam, assim como as aptidões de cada aluno para determinadas modalidades. O maior exemplo de sucesso dessa fórmula é dos Estados Unidos, visto que aquela nação baseia toda a formação esportiva de seus atletas nas escolas e universidades. E o resultado é a obtenção de vitórias que elevaram aquele país ao topo do esporte mundial.
Essa não aplicação do esporte como disciplina escolar, gera outra questão que impacta o esporte olímpico brasileiro: a de se nortear pelo trabalho dos clubes amadores, muitos deles com perfil de clubes sociais que investem em esportes. E tais clubes muitas vezes não possuem recursos para formação e manutenção, em alto nível, dos atletas que descobrem, fazendo com que o número de atletas apoiados seja reduzido! Não estou pregando que o esporte brasileiro seja ‘retirado’ dos clubes, mas que haja investimentos no esporte escolar e universitário trabalhando em conjunto com os clubes. Unir o despertar e a força que o esporte escolar gera (obviamente que tratando esta etapa com um viés profissional e com os investimentos necessários para tanto) com a especialização que muitos clubes possuem seria uma excelente aposta. Mas o que acontece atualmente, dentro dessa matriz clubística, é que apenas se apoia atletas que já estejam demonstrando algum valor e potencial de vitórias. Não há um processo massivo de descoberta de atletas! Imagine quantos potenciais jovens atletas poderíamos descobrir e manter se houvesse uma política mais inclusiva dentro dos esportes olímpicos brasileiros! Ainda mais dentro de uma população imensa e com a miscigenação que o Brasil possui!

Apesar deste cenário, com esta dificuldade de descoberta precoce de atletas, podemos notar que o esporte brasileiro não está tão pobre assim como muitos ainda pensam que está e que seguem fazendo a apologia do ‘coitadismo’. Além dos investimos diretos nas confederações, o COB bancou uma excelente estrutura para os atletas nestes jogos olímpicos. Alugou um dos melhores centros esportivos europeu, o Crystal Palace National Sports Centre. Tal espaço conta com excelentes instalações para praticamente todos os esportes olímpicos, e o COB customizou espaços para aquelas modalidades que não estavam contempladas, como o vôlei de praia. Além disso, o judô brasileiro ficou concentrado em Sheffield, cidade próxima à Londres, onde contou com estrutura adequada para manutenção de sua preparação para os jogos. Várias modalidades tiveram grande apoio para desempenhar muito bem o Brasil, com o COB fazendo um excelente trabalho para que isso pudesse acontecer. Então, cobranças na são descabidas, simplesmente são respostas a algum mau desempenho que determinados atletas tiveram, mesmo recebendo apoios importantes. E cito as confederações que mais ganharam benefícios para esta preparação: atletismo, desportos aquáticos, handebol, hipismo, judô, vela e vôlei. Estas confederações e seus atletas devem ser cobrados, de modo que a natural acomodação brasileira não tome conta de futuros projetos e futuras possibilidades de vitórias.

Portanto, mesmo que ainda haja uma questão de origem a se ajustar nas políticas de apoio ao esporte olímpico brasileiro, alguns esportes estão recebendo valores consideráveis para que desempenhem bem o Brasil. Poucos atletas podem ser qualificados como heróis por simplesmente defender o país, mesmo que em condições anormais. Os verdadeiros heróis são os milhões de brasileiros que ainda passam fome, e que dariam tudo para trocar de lugar com vários destes atletas ‘coitados’.

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About Daniel Mello

Coordenador Comercial na Infoar - Mais Continental; Consultor em Marketing Direto e MKT de Relacionamento; Professor de Língua Portuguesa. Um profissional dedicado aos encantos da área comercial e aos mistérios da Comunicação Escrita e Produção de Textos! Um cara sempre em busca de aprendizado. E pronto para dividir expectativas, anseios e um pouquinho de conteúdo! ;)
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