A precária realidade dos menores clubes de futebol do RS

Os campeonatos do futebol brasileiro se dividem em 4 divisões. Nas sérias A, B e C os clubes disputantes obtêm suas vagas com base em seus desempenhos nessas próprias competições. Já a série D depende de qualificação e indicação das federações estaduais a partir de seus campeonatos locais. A partir de uma leitura apenas dos 3 principais campeonatos – A, B e C – notei que o futebol do RS possui apenas 3 clubes nessas divisões: Inter, Grêmio e Caxias. Trata-se de um número muito baixo, considerando a qualidade do futebol gaúcho e todas as conquistas e títulos já alcançados. E aí vem a pergunta: por que o futebol do RS não consegue criar forças alternativas aos 2 clubes grandes da capital? Por que o RS não possui mais clubes nas 3 primeiras divisões do futebol brasileiro?

Antes de tentar responder estas questões, cabe um pequeno histórico das últimas participações dos menores clubes do RS nas principais divisões de campeonatos brasileiros. Friso que falaremos em futebol do RS, mas não estaremos nos relacionando nem a Inter, nem a Grêmio. Seguindo a ideia deste texto, até metade dos anos 80, tivemos seguidamente clubes do interior participando e alcançando considerável sucesso. O maior exemplo disso foi o Brasil de Pelotas no campeonato brasileiro da primeira divisão de 85, em que chegou ao terceiro lugar. Outros clubes também tiveram momentos reluzentes, como o próprio Brasil em anos anteriores, o Internacional de Santa Maria, São Paulo de Rio Grande e Caxias. Nos tempos modernos, em que os campeonatos se organizam por divisões baseadas no mérito, o Juventude manteve-se por longos anos na primeira divisão. Principalmente, segurou-se enquanto teve um patrocínio forte da Parmalat, empresa que geriu o clube e inclusive foi decisiva no sucesso da escalada verde até a série A. Quando a patrocinadora deixou o clube, o Juventude não conseguiu se sustentar no topo do futebol, decaindo em escala geométrica até chegar à série D, divisão em que se encontra atualmente. Nesse período o único clube gaúcho que se aproximou da série A foi o Caxias, que em 2001 ficou em terceiro lugar no quadrangular final da série B, que ao seu final classificou os 2 primeiros colocados.

Assim, notamos que o futebol gaúcho regrediu em termos de posicionamento no cenário nacional. Não sei se há uma resposta definitiva para tentar explicar essa situação. Porém, há hipóteses que podem auxiliar no entendimento desta deficiência. Uma delas é a tão propalada estrutura. Nossos clubes são muito deficientes nesse quesito, tanto que os próprios estádios, em sua maioria, são vergonhosos, tanto para a prática do futebol, treinamentos e acomodação aos torcedores e imprensa! Comparando, os clubes do interior de São Paulo possuem estruturas elogiáveis, assim como estádios em boas condições. Os clubes do interior do Paraná e Santa Catarina também possuem estruturas melhores e estão dentro de uma realidade regional e econômica muito similar aos clubes do RS. No Paraná, por exemplo, temos cidades como Londrina, Maringá e Cascavel com ótimas estruturas. Atualmente, os clubes dessas cidades não estão bem, mas já estiveram próximos dos grandes por muito tempo. Já em santa Catarina a realidade atual é promissora. Há um clube na série A, Figueirense, que possui boa estrutura e competente administração. Há 3 clubes na série na B, Criciúma, Joinvile e Avaí, que também possuem boa estrutura. E ainda a Chapecoense na série C. Todos estes clubes de SC possuem bons estádios para seus torcedores e imprensa. Tais clubes atraem uma média razoável de torcedores aos seus jogos e que é bem maior do que as médias dos clubes do RS. Nesse caso de estrutura, ainda poderia citar o estado de Minas Gerais, que possui seus 2 grandes na série A e mais 3 clubes na série B. E é um estado com nível de sucesso futebolístico semelhante ao RS.

Outro ponto a se levar em consideração é a política das federações de futebol dos estados. Particularmente, a federação gaúcha prioriza seu campeonato inchado, não pensando no futebol dos menores clubes como de temporada inteira. A FGF infla um deficitário campeonato com 16 clubes sem que haja espaço para tanto. É aquela famosa máxima: ao invés de qualidade, busca-se a quantidade. Claramente, há um contexto político de manutenção de poder na federação que impede os dirigentes de melhorar esta situação. Apenas como comparação podemos citar o estado de Minas, em que lá são 12 clubes. Mas no RS se busca dividir a miséria, ao invés de recuar, melhorar a situação para depois multiplicar o ganho.

Outro viés a se pensar é que temos várias cidades no interior do RS que não possuem capacidade de ter 2 clubes de futebol em nível de competição profissional. Antigamente, até os anos 70, era a rivalidade local que mantinha os clubes, através de “padrinhos” endinheirados que os sustentavam em nome de vencer seus desafetos locais. Atualmente, ela acaba com os clubes! As cidades do interior não possuem mais os “padrinhos” e não conseguiram criar uma cultura de apoio do empresariado local aos clubes de suas cidades. Como imaginar que cidades como Passo Fundo, Santa Cruz, Santa Maria, Rio Grande e Santana do Livramento podem pensar em apoiar e tornar grande algum de seus clubes? Não há como! Se já é difícil para cidades e mercados com apenas um clube, imagina para 2. E, ainda, há os casos de dificuldade para maiores cidades como Caxias e Pelotas sustentar seus diferentes clubes!

Nesses casos os clubes de cidades de porte menor deveriam se fundir, agregar forças em suas comunidades e competir pela bandeira de sua cidade. Assim como acho que em cidades como Pelotas e Caxias os clubes deveriam buscar alguma área bem localizada com suas prefeituras e formar parceira com alguma construtora e construir um estádio moderno de uso único. Assim, poderiam estar com uma estrutura melhor, capaz de receber melhor seus torcedores e gerar receitas adicionais que apenas os novos conceitos de estádios conseguem alcançar. Obviamente, sei que há enormes resistências para a aceitação dessas sugestões. Porém, deve-se avaliar se é melhor ficar nessa realidade de miséria, mas ostentando grandeza e orgulho falsos, ou se é melhor unir forças e realmente ter chances de fazer crescer não só esse novo clube, oriundo dessa possível união, assim como toda a comunidade. Já tivemos exemplos de cidades em que dirigentes não quiseram unir seus clubes, ocasionando a morte de praticamente todos. Uruguaiana perdeu seus 3 clubes, Santo Ângelo perdeu 2 de seus 3, assim como Santana do Livramento.

Além desse quadro, há ainda outro ponto que torna mais difícil pensar em ascensão dos clubes menores do RS no cenário nacional dentro das regras das séries C e D. As competições são regionalizadas, ou seja, formam-se grupos entre os clubes de estados mais próximos. E isso tem tornado a tarefa bem mais difícil, pois no afunilamento dos torneios os clubes do RS enfrentam clubes da região sul do Brasil, paulistas ou mineiros. Do outro lado, os enfrentamentos se alinham entre clubes do RJ, norte, nordeste e centro-oeste. Por isso, temos hoje uma série B dividida, em sua maioria, entre clubes de SP e do nordeste. As exceções são os mineiros e catarinenses.

Portanto, já existem grandes dificuldades além da realidade local. Mas também existem questões locais que só dependem de decisões inteligentes. Sejam elas de dirigentes de clubes, de dirigentes da FGF ou até mesmo da imprensa dessas cidades do interior que poderia encampar ideias inovadoras nesse sentido. Há também bons exemplos que podem ser seguidos, aqui mesmo no RS, como o do Lajeadense, do Cruzeiro/PA e do Novo Hamburgo. No fundo, é apenas uma questão de decisão.

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About Daniel Mello

Coordenador Comercial na Infoar - Mais Continental; Consultor em Marketing Direto e MKT de Relacionamento; Professor de Língua Portuguesa. Um profissional dedicado aos encantos da área comercial e aos mistérios da Comunicação Escrita e Produção de Textos! Um cara sempre em busca de aprendizado. E pronto para dividir expectativas, anseios e um pouquinho de conteúdo! ;)
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