O Caso USP e a Falta de Inteligência das Lideranças Estudantis

Eu ainda era muito jovem quando aconteceram todos os movimentos pelas Diretas Já. Lembro vagamente das imagens em reportagens de televisão. Porém, mais tarde, aprendi que estes movimentos foram importantíssimos para que nosso país retomasse o caminho da democratização. Entretanto, no movimento Fora Collor eu estava lá, em minha época de estudante secundarista. Participei de passeatas, de manifestações e dos demais engajamentos sociais que fizeram parte daquele movimento. Tanto o movimento das Diretas Já quanto o Fora Collor foram as maiores fontes de aglomerações populares dos últimos 30 anos, mesmo que apresentassem objetivos e formatos diferentes, adequados ao momento histórico que nosso país vivia. E isso é natural, pois em questão de poucos anos as conjunturas políticas, econômicas e sociais se tornam diferentes, fazendo com que o foco dos discursos mude radicalmente como já vimos em muitos casos e continuamos a ver atualmente.

Faço esta breve introdução para dizer que entro nessa análise sobre o caso USP com muita temeridade em relação ao papel atual do movimento estudantil no Brasil. Já havia notado que as entidades estudantis tinham perdido o foco após o Fora Collor. Todos os movimentos orquestrados pelos estudantes após esse período não lograram sucesso, nem tiveram eficácia, muito menos angariaram apelo popular. E a chegada ao poder central de um governo que se elegeu com o discurso de esquerda efetivou a desafinação ideológica do movimento estudantil brasileiro, pois não sabiam mais a quem reclamar e nem como justificar os atos de governo daqueles antes por eles defendidos. O resultado disso foi uma debandada em massa dos estudantes para as fileiras dos partidos de extrema esquerda, radicais por excelência. E é essa turma de extrema esquerda que atualmente comanda as rédeas no movimento estudantil brasileiro. E a forma desse povo se manifestar nem sempre foi agradável ou delicada, se assim podemos dizer.

E aí entramos definitivamente no caso USP, em que muitas teses estão sendo colocadas em discussão sobre essa invasão e posse da reitoria da USP por parte de seus estudantes. Entendo que haja reivindicações anteriores ao ato que culminou com o ápice da balbúrdia – a prisão dos alunos que fumavam maconha dentro do campus da universidade -, mas vamos pontificar algumas situações. Primeiramente, os alunos querem a retirada da PM de dentro do campus em função do policiamento agir com truculência, de acordo com os alunos revoltos. Mas o fato é que os índices de crimes diminuíram muito desde o início do policiamento da PM, pois falamos de uma “Cidade Universitária” e toda a sua dimensão e estruturas, em que simples guardas universitários não conseguiriam manter um estado de ordem, nem mesmo reprimir traficantes de drogas (vide o Campus do Vale da UFRGS). Ainda, em segundo lugar, dizem que falta democracia nas decisões da universidade para com os pleitos dos alunos.

A partir destes dois apontamentos, creio que a reivindicação maior e mais justa foi-se pelo ralo. Pois sempre é correto debater as formas como se determinam os processos de participação em qualquer instituição, ainda mais em uma universidade pública. E esse debate agora fica totalmente comprometido, pois como buscar mais democracia se os próprios estudantes dão claro exemplo de que nem sabem o que é este conceito? Pois nem suas próprias instâncias coletivas são respeitadas, já que houve desobediência a uma decisão da assembleia dos estudantes que definiu a desocupação da reitoria. Essa turma de 70 invasores revoltados não soube acatar uma decisão democrática da maioria de sua categoria. Como podem exigir democracia em nossas instituições se são os primeiros a promover a desobediência da mesma? Qual o conhecimento sobre coerência que possuem tais estudantes? Assim, fica claro que a ocupação da reitoria foi norteada por fatos políticos e/ou busca da manutenção de um status (liberdade para o baseado), pois os estudantes poderiam ter projetado de uma forma mais social e democrática as suas reivindicações por maior participação. Faltou inteligência aos estudantes da melhor universidade da América latina!

Entretanto, o fato determinante para entornar o caldo foi a tal prisão dos alunos maconheiros pela PM. Imagino que os alunos tenham chegado ao seu limite com as ações da polícia e que tenham também pensado algo assim: “como pode a PM prender nossos colegas maconheiros?” Ora, se a maconha é uma droga ilícita e tais drogas são proibidas, por que os estudantes se acham no direito de fumar baseado em um lugar público e que ainda serve para formação educacional e do conhecimento? Por que os demais alunos devem conviver com atos ilícitos em benefício de uma minoria contraventora (sei que falamos de um crime de menor potencial, mas esteticamente fica melhor chamar de contraventora até pela sua baixa ofensividade). Se há o desejo de fumar marijuana, que seja em um lugar que respeite a coletividade. Sou totalmente contra as drogas, mas entendo que cada um pode usar o que quiser desde que não invada o espaço de terceiros. Isso é liberdade! E a liberdade de um vai até o limite em que começa a liberdade do outro. Se passar disso é abuso, é falta de consciência coletiva!

Apesar de entender que os estudantes erraram o foco, todos nós sabemos que muitos factóides têm sido criados pela banda podre da mídia sobre esta ocupação. Obviamente, que era isso que a tal banda podre da mídia precisava para denegrir a imagem dos estudantes de universidades públicas do Brasil como um todo. Até porque esta mesma mídia nunca se preocupou, em nenhum momento, de tratar o tema universidade pública sob a ótica de uma necessária evolução nas práticas diretivas e conceituais, principalmente em relação aos temas que tratam das disciplinas das áreas humanas (onde está a maioria dos 70 alunos invasores da reitoria). Cabe ainda ressaltar que não é exclusivo das classes menos favorecidas o ato de exercer reivindicação. Se a classe média ou a classe alta se acha no direito de reclamar algo, elas têm toda a liberdade de manifestação. Desde que seja por algo legal, é claro. E a banda podre da mídia ridiculariza o tema em função de quem o promove, e não pela ótica do tema em si. E muito menos avaliaria e noticiaria qualquer tipo de violência cometida pela PM paulista contra algum estudante, pois afinal são todos “filhinhos de papai”. E sabemos que houve truculência!

Enfim, creio que não haja nesse caso a dualidade de certos VS errados. Há certos dos dois lados e errados também. A Polícia precisa reavaliar suas ações de maneira geral, assim como os estudantes necessitam urgentemente de uma nova visão real de sociedade. Penso que após este caso os estudantes deveriam fazer uma profunda reflexão sobre o melhor papel que os mesmos podem exercer. Isso tudo em relação à busca pelos seus direitos específicos e também quanto a benefícios que possam reivindicar para a sociedade como um todo. Ganhariam a opinião pública se, ao invés de invasões e defesa de praticantes de atos ilícitos, programassem atividades públicas geradoras de benefícios sociais daquilo que estão aprendendo na universidade à população menos favorecida. Aposto que seria uma ótima forma de protesto! Porém, em razão de que é mais fácil tumultuar do que promover efetivamente ações propositivas, essas oportunidades acabam passando longe da maioria de nossos líderes estudantis. E reafirmo: falta inteligência aos nossos líderes estudantis universitários!

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About Daniel Mello

Coordenador Comercial na Infoar - Mais Continental; Consultor em Marketing Direto e MKT de Relacionamento; Professor de Língua Portuguesa. Um profissional dedicado aos encantos da área comercial e aos mistérios da Comunicação Escrita e Produção de Textos! Um cara sempre em busca de aprendizado. E pronto para dividir expectativas, anseios e um pouquinho de conteúdo! ;)
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