E o Gerúdio nosso de cada dia!

A freqüência com que ouvimos frases carregadas de gerundismo é enorme. Uma parte dos falantes de Língua Portuguesa parece que descobriu um script de péssimas maneiras ao interagir verbalmente com seu interlocutor. E ainda sublima esse discurso com a repetição destes termos impagáveis. Há muito tempo o tema Gerúndio chama minha atenção. Mas foram alguns posts do consultor e palestrante Dado Schneider (@dado4314), há alguns dias, que me fizeram retomar este assunto com a devida atenção.

Pois bem. O gerúndio é uma fascinação brasileira na sua essência! Bem particular nossa. Em Portugal, a mesma construção que aqui usamos é tratada de outra maneira. Por exemplo, a construção brasileira “estava andando” lá na terrinha seria “estava a andar”. Imagine se os lusos usariam algo como “vou estar resolvendo”, ou até pior, “vou estar procurando resolver”! Nestes últimos monstrengos o próprio corretor do Word indica “vou procurar” para substituir pelo “vou estar procurando”. Mas alguns de nossos falantes não deixam de usar essa overdose de verbos.

Mesmo que seu uso esteja espalhado entre muitos falantes, o gerundismo virou marca do telemarketing brasileiro. São aquelas desagradáveis ligações telefônicas que recebemos em que a impressão é de que falamos com máquinas repetidoras de um discurso único. Imagine o seguinte: o processo de oferecer algo, de vender, de divulgar, já é por si só invasivo. E, apesar disso, o pessoal ainda utiliza esse discurso que trinca os ouvidos do interlocutor! Seria esta unificação de um discurso pobre capaz de abrir as portas do sucesso?! Triste ilusão de quem a utiliza…

E de onde veio essa bagaça?! Alguns dizem que esse uso do gerúndio se origina de construções da língua inglesa. E de acordo com a especialista em Língua Portuguesa, Marina Cabral, “a origem mais provável para tal estrutura remete-se aos manuais americanos de treinamento de operadores de telemarketing, onde a estrutura ‘we’ll be sending tomorrow’ aparecia com freqüência. Ao traduzir para o Português, a estrutura ganhou tradução literal (‘vamos estar enviando amanhã’) e se espalhou”. Literalmente, fizeram merda!

E assim o gerundismo contaminou nosso idioma e uma boa parte de nossos discursos. Alguns exemplos:
• Ministro da Saúde da época, José Serra, pronunciou em uma entrevista: “…outra vacina que vamos estar aplicando amanhã”.
• “O garçom já vai estar com as senhoras”. Personagem Natalie – novela Insensato Coração da Rede Globo.
• “Tem a opção das vans, também você pode tá observando”. Moto taxista no programa A Liga da Band.
• Aviso do Windows: “Se precisar continuar usando o computador…” Argh!

Bom, sabemos que o gerundismo existe e detestamos ouvir. Mas e daí? O que de fato isso significa para minha vida? Se você trabalha com público significa muito! Se você interage com pessoas diariamente significa ainda mais! Se você coordena/chefia/comanda equipes de áreas que lidam diretamente com outras pessoas, você precisa ter consciência crítica a respeito desse vício de linguagem.

Deve ser parte de sua estratégia de abordagem eliminar o uso do gerundismo! Especialmente as áreas comerciais das empresas/organizações devem se vacinar contra esse vício, pois essa overdose de verbos afasta o interlocutor. E afastando seu potencial cliente, não há chances de sucesso de sua empreitada.

Ademais, as áreas de atendimento direto também devem banir o uso do gerúndio de seus discursos. Já presenciei profissionais da área de saúde proferindo gerundismos no atendimento a pacientes! Coitados dos pacientes que já chegam debilitados à organização de saúde e ainda são obrigados a ouvir verbo e mais verbo que não querem dizer absolutamente nada mais do que se poderia dizer com uma locução verbal tradicional. Dor, também nos ouvidos!

Além disso, os profissionais que trocam as mais variadas formas de correspondências com clientes/potenciais clientes devem atentar bastante para como estão escrevendo para estes. Carregar suas frases de gerúndio já faz com que seu leitor canse rapidamente de sua mensagem, o que pode tornar a leitura dela abortada antes que seja completado o sentido desta mensagem. O resultado disso é que você perdeu aquela chance de informar seu cliente/potencial cliente. E sem informação não há interação! Sem interação não há como despertar interesse de seu interlocutor! Sem despertar interesse, não há venda, não há sucesso, por exemplo.

Portanto, ao eliminarmos a prática do gerúndio de nossas construções verbais também estaremos tratando nosso interlocutor como pessoa, como humano. Pois, assim, nosso discurso não será aquela espécie de “script gravado”, de falta de uso da língua verdadeiramente viva. Pense nisso! Coloque maior naturalidade em suas interações verbais! Afinal de contas, não queremos falar com máquinas repetidoras. Queremos interagir com pessoas! Queremos vida!

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About Daniel Mello

Coordenador Comercial na Infoar - Mais Continental; Consultor em Marketing Direto e MKT de Relacionamento; Professor de Língua Portuguesa. Um profissional dedicado aos encantos da área comercial e aos mistérios da Comunicação Escrita e Produção de Textos! Um cara sempre em busca de aprendizado. E pronto para dividir expectativas, anseios e um pouquinho de conteúdo! ;)
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