Por uma análise minimamente melhor!

Polêmica total! Foi o que aconteceu a partir da divulgação da adoção, por parte do Ministério da Educação, do livro didático “Por Uma Vida Melhor” para turmas do EJA (Lembre-se, é um livro para alunos do EJA), que apresenta e traz à discussão aspectos da língua falada para o interior da sala de aula. “Por Uma Vida Melhor“: título de caráter eminentemente utópico. Mas porque essa preocupação, pois se ensinar, lecionar, educar são tarefas em que a utopia está e estará sempre presente?

Antes de continuar quero pedir desculpas aos leitores se cometer algum equívoco. Entendam que estou afastado da cátedra e também do dia-a-dia do estudo de nossa língua portuguesa há oito anos. Minha vida profissional conduziu-me a outros caminhos, mas nunca deixei de olhá-la, cuidá-la, mesmo sendo com certa distância. Outro detalhe é que não entendam este texto como algo técnico. Não é este meu objetivo, mesmo que para sê-lo não precisaríamos passar por grandes tormentas.

Então, voltando à polêmica, a motivação de escrever este material surgiu principalmente em função de vários jornalistas saírem metralhando seus leitores com opiniões vazias, críticas baseadas apenas no conceito do Certo versus Errado, sem nenhum conhecimento técnico. Assim, busquei em minha estante algumas publicações que poderiam me brindar com maiores ferramentas para participar desse debate. Foram elas: “O Preconceito Linguístico”, de Marcos Bagno; “Linguagem, Poder e Ensino da Língua“, de José Hildebrando Dacanal; e “Ensino da Gramática – Opressão? Liberdade?”, de Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras. Seguindo os autores destas publicações, temos um ferrenho defensor das variedades linguísticas e um batalhador pelo fim do preconceito linguístico – Bagno; um defensor do ensino da norma culta como forma de crescimento social por parte do aluno – Dacanal; e um imortal que, apesar de ser autor de uma Gramática de Língua Portuguesa (Moderna Gramática Portuguesa), entende e navega entre os oceanos do ensino da língua – Bechara.

Partindo para dentro do olho do furacão, vamos citar alguns apontamentos destes autores sobre o assunto. Dacanal defende o ensino da norma culta de forma que o aluno possa ascender socialmente e profissionalmente. Afirma que em um mundo como o atual, dominado pela rigidez de classes sociais “o objetivo será sempre de levar o aluno a falar e escrever seu idioma segundo as normas socialmente aceitas”. Além disso, diz que é uma “iniqüidade humilhar um aluno por falar ou escrever errado […] Mas é uma iniqüidade muito maior levá-los a acreditar que é isto que devem continuar fazendo”.

Por outro lado, Bagno diz que se fosse o conhecimento da norma culta parâmetro para ascensão social, os professores de língua portuguesa deveriam estar no topo desta pirâmide social. Bagno defende o ensino das variedades da língua como forma de limitar o preconceito lingüístico, de modo que o aluno não fique condicionado a participar dos debates em sala de aula apenas se ou quando dominar a norma culta. Ou seja, utilizando sua variedade coloquial falada para participar do “debate”. Afirma, ainda, que não se pode “incorrer no erro milenar dos gramáticos tradicionalistas de estudar a língua como uma coisa morta, sem levar em consideração as pessoas vivas que a falam”. Bagno cita que não é porque defende a variedade falada, buscando diminuir o preconceito lingüístico, que o ensino da língua será um vale tudo. Diz que “em termos de língua tudo vale alguma coisa, mas esse valor vai depender de uma série de fatores. Falar gíria pode? Claro que vale: no lugar certo, no contexto adequado com as pessoas certas”.

Já Bechara parte da idéia de que a escola é o lugar para se ensinar as variedades da língua. Inclusive, argumenta que o professor deve entender a realidade em que está inserido, vivê-la juntamente com seus alunos, inicialmente, e, a partir de então, guindá-los a uma nova realidade, que seria o ensino da norma culta. Nesse sentido, Dacanal concorda com esta assertiva, quando diz: “é um princípio elementar do bom senso pedagógico que o aprendizado se dá a partir do mundo do aluno […] Não que o aluno tenha que ficar restrito e limitado a esse mundo, bem pelo contrário. Mas é a partir dele que deve ampliar sua informação e seu conhecimento.” Bingo! É exatamente assim que deve ser feito!

Além disso, Bechara traz à discussão um termo muito interessante. Diz que “cada falante é um poliglota na sua própria língua, à medida que dispõe da sua modalidade linguística e está à altura de descodificar mais algumas outras modalidades”. E esta seria a grande missão do professor, transformar cada aluno em um poliglota dentro de sua própria língua. Assim, este aluno poderá escolher qual a modalidade adequada para usar em cada situação em que estiver inserido. O autor diz que, dessa forma, não há Opressão, pois o aluno saberá usar a norma adequada sem que haja pressão por esta ou aquela variedade.

Após os apontamentos dos autores, em que cada um apresenta seu conceito sobre o ensino da língua e de como devemos dominar as variedades, percebo que, mesmo concordando com os demais em alguns pontos, é a ideia de Bechara que me induz a segui-la com maior intimidade. É dessa forma que entendo o capítulo do livro didático “Por Uma Vida Melhor“. Primeiro, estamos chamando o aluno do EJA para o debate. Lembre-se, é um livro para alunos do EJA!! Ele só entenderá o tal chamado se utilizarmos uma linguagem a qual ele está acostumado. A partir de então, parte-se para apresentação das diferenças entre a variedade popular (universo do aluno) e a variedade culta (o que queremos que o aluno alcance) e, também, as demais variedades existentes. Não se trata de privilegiar esta ou aquela forma, mas apenas dizer que “estamos sabendo como vocês falam, se comunicam”, para depois trabalhar com outras variedades e demonstrar que elas serão extremamente necessárias em diversas ocasiões na vida deste aluno. Alguns “entendidos” dizem que os alunos não precisam aprender a variedade que já utilizam, mas, sim, precisam apenas da variedade culta. Negativo, pois muitos nem fazem ideia de como estruturam sua própria comunicação. Assim, ao demonstrá-la na forma escrita, o professor consegue gerar percepções dos alunos que eles nunca teriam, como por exemplo, frases do tipo: ”nunca imaginei que falava assim.

Voltando ao tema que me motivou a escrever este texto, notei que diversos jornalistas entraram nessa discussão e partiram para o ataque com o seguinte discurso: Só existe uma maneira certa de falar e escrever, que é… A MANEIRA CERTA!” – Palavras de, David Coimbra, editor-chefe de esportes do Jornal Zero Hora de Porto Alegre, em seu blog, em resposta a uma matéria publicada por ZH, em que a Professora Doutora Ana Zilles defendia o uso do livro. Gostaria, sinceramente, de ver como este cidadão, e demais críticos, escrevem suas mensagens instantâneas, suas mensagens eletrônicas, entre outras formas de escrita do dia-a-dia. Indo além: eles falam sempre de acordo com o vernáculo, seguindo à risca as normas da língua culta, inclusive interagindo em seu próprio lar, com sua família? Provavelmente não. Claro que não! Até porque, nem em suas inserções em seus veículos de comunicação conseguem manter o padrão da língua culta! Ainda, criticaram a Linguística como sendo uma espécie de “demônio criador do monstro defensor” do “escrever errado”. Como resposta, cito Bechara, que traz ao debate o quanto “a linguística, mais precisamente a sociolinguística, foi a certeza de que a língua comporta […] de modo que não se pode pensar que a realização idiomática só se faça ou só se possa fazer na modalidade culta, postergando de todo a modalidade coloquial, a língua transmitida de pais a filhos”.

Seguindo, chega o momento de citar, até mesmo como defesa do uso do livro (veja: aqui não há uma defesa do livro em si, mas do uso do mesmo, com a apresentação da variedade coloquial falada), uma afirmação de uma das autoras de “Por Uma Vida Melhor“, Heloisa Ramos:

Não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para uma situação. Por exemplo, na hora de estar com os colegas, o estudante fala como prefere, mas quando vai fazer uma apresentação, ele precisa falar com mais formalidade. Só que esse domínio não se dá do dia para a noite, então a escola tem que ter currículo que ensine de forma gradual”, diz.

Fonte:  http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/nao+somos+irresponsaveis+diz+autora+de+livro+com+nos+pega/n1596948804100.html

Exatamente isso! Trata-se de uma forma de aproximação de realidades. Não cabe tomar alunos de EJA e já jogá-los para dentro de uma realidade em que eles nunca participaram. É preciso facilitar o processo de inserção na comunicação para que consigamos chegar ao resultado almejado, qual seja: ensinar a variedade culta e saber que os alunos entenderão a mesma.

Agora, um trecho do próprio livro:

A norma culta existe tanto na linguagem escrita como na linguagem oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta. Algo semelhante ocorre quando falamos: conversar com uma autoridade exige uma fala formal, enquanto é natural conversarmos com as pessoas de nossa família de maneira espontânea, informal.

Opa! Para tudo! Não vi nenhum dos críticos citar esse trecho do livro! Má fé? Desinformação? Preguiça por pesquisar, senhores David Coimbra, Rogério Mendelsky, membros do CQC, dentre tantos outros?

Seguindo esta linha de raciocínio, corroborando a idéia deste texto, um depoimento da professora de língua portuguesa e linguísta Daniela Jakubaszko sobre este tema:

Eu, como lingüista e professora, não apoio a retirada dos livros porque não acho justo falar para o aluno que o jeito que ele fala é errado, até porque não é, só não está de acordo com a norma culta, o que é muito diferente. Depois que você explica isso para o aluno é que ele entende o que está fazendo naquela aula. Essa troca faz toda a diferença (…) já foi muito errado falar (e escrever) “você”, por exemplo.

Fonte:

http://www.planetaosasco.com/oeste/index.php?/2011052214023/Nosso-pais/daniela-jakubaszko-por-uma-vida-melhor.html

Aí que está a questão. O que hoje é dado como “errado”, “inadmissível”, amanhã será incorporado a nossa língua. Ela é VIVA! Por isso, não entendo a repulsa a um simples capítulo do livro, por ele abordar a variedade coloquial falada. O que não pode é ficar a imagem de que esta é a forma única, sem apresentarmos a norma culta e quando efetivamente devemos utilizá-la. Por isso, importante é o papel do professor como complementador do livro didático!

Nesta linha, quando estudei no antigo primeiro grau – sexta ou sétima série, lá na segunda metade da década de 80, minha professora de português, Luzânia, adoradora da norma culta, por excelência, utilizou um livro didático que, em um dos capítulos, remetia a realidade de uma família do sertão. Nesse texto, um menino utilizava bastante o vocábulo “foscri”. Além deste, outras tantas formas – que agora não recordo, inclusive de conjugação – que se afastavam da norma culta e estavam presentes no texto. Para nós, estudantes de classe média em uma escola urbana de freiras, aquilo era algo totalmente desconhecido, quase irreal (quem sabe surreal?!). Era bastante diferente! Mas ficamos sabendo através do texto que “foscri” era como chamavam o palito de fósforo naquelas comunidades. A pergunta: transitar por esta realidade tornou-nos menos capacitados como falantes, interlocutores da língua portuguesa? Claro que não! Apenas fomos introduzidos a uma variedade desconhecida da mesma língua portuguesa que falamos até hoje.

Todo esse manancial de informações, as citações de autores consagrados, da autora do livro participante de toda essa discussão, não tem como objetivo retirar da escola o dever e a obrigação de ensinar a norma culta. É na escola o espaço para tanto! O que não podemos é entender a demonstração de outras variedades da língua como “monstros” que chegarão para abalar mentes e confundir o intelecto de nossos alunos. Ainda, gostaria de retirar dessa discussão o debate político, de que esta escolha do livro didático ou que a linha pedagógica da escolha seja de agora, como citaram alguns dos “entendidos”. Para tanto, citarei abaixo trecho dos Parâmetros Curriculares Nacionais, publicados pelo Ministério da Educação e do Desporto em 1998. Fica claro que esta é uma norma de 1998, e está publicada bem antes do atual governo e, para mim, é mérito (sim, mérito) das administrações anteriores do Ministério da Educação:

“A variação é constitutiva das línguas humanas, ocorrendo em todos os níveis. Ela sempre existiu e sempre existirá, independentemente de qualquer ação normativa. Assim, quando se fala em “Língua Portuguesa” está se falando de uma unidade que se constitui de muitas variedades. […] A imagem de uma língua única, mais próxima da modalidade escrita da linguagem, subjacente às prescrições normativas da gramática escolar, dos manuais e mesmo dos programas de difusão da mídia sobre “o que se deve e o que não se deve falar e escrever”, não se sustenta na análise empírica da língua”.

 

Para finalizar, reitero a crença de que seja uma boa maneira de ensinar língua portuguesa trabalhar com as formas, variantes, de modo que o aluno seja um conhecedor de sua língua e saiba utilizá-la da melhor maneira de acordo com as circunstâncias as quais estiver envolvido. Portanto, não creio que a discussão para melhoria do ensino da língua deva se centrar apenas no ensino das variedades. Mas, sim, na forma como o professor deve se posicionar para buscar os melhores resultados através destas ferramentas. Como escreve Bechara, o mestre não pode apenas falar a variedade do aluno, sob pena de ficar a impressão de que lhe falta competência para conduzir seus alunos ao conhecimento das demais variedades, e, dentre elas, a variedade culta. Acima de qualquer coisa, quero afirmar que todo o conceito que preze pelo afastamento da dicotomia do certo e do errado, puramente como fator de existência e acomodação dos termos, terá minha simpatia.

         Como mensagem final, quero deixar um trecho do livro Emília no País da Gramática (1934), de Monteiro Lobato, retirado do livro de Marcos Bagno, “Preconceito Linguístico”, aqui já citado. Ao visitar o País da Gramática, a prisão onde Dona Sintaxe mantinha enjaulados os “vícios de linguagem”, revoltou-se ao ver atrás das grades o “Provincianismo”, isto é, os “vícios” da fala rural, do “caipira”:

“Emilia não achou que fosse o caso de conservar na cadeia o pobre matuto. Alegou que ele também estava trabalhando na evolução da língua e soltou:

– Vá passear, seu Jeca. Muita coisa que hoje esta senhora condena vai ser lei um dia. Foi você que inventou o você em vez de tu, e só isso quanto vale? Estamos livres da complicação antiga do Tuturututu.”

 

Daniel Mello

Empresário-Empreendedor, Licenciado em Letras pela UFRGS.

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About Daniel Mello

Coordenador Comercial na Infoar - Mais Continental; Consultor em Marketing Direto e MKT de Relacionamento; Professor de Língua Portuguesa. Um profissional dedicado aos encantos da área comercial e aos mistérios da Comunicação Escrita e Produção de Textos! Um cara sempre em busca de aprendizado. E pronto para dividir expectativas, anseios e um pouquinho de conteúdo! ;)
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